Economia da Cultura

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Bem-vindo ao site Economia da Cultura! Este é um projeto do Instituto Sociocultural Overmundo, em parceria com o CTS/FGV e com o apoio do Centro Internacional de Pesquisas para o Desenvolvimento – IDRC, órgão de cooperação internacional do governo canadense.

O Economia da Cultura vai analisar as notícias veiculadas em jornais impressos e eletrônicos brasileiros sobre a questão. Aqui também será o espaço para tratar daquilo que acontece de relevante em modelos de negócios abertos no mundo da cultura.

Overmundo
IDRC

Rio de Janeiro, 06 de Fevereiro de 2012

Oona Castro

Sobre quando a imprensa falha

13 de abril de 2009

Deu na Gazeta Mercantil: “A Microsoft, maior fabricante de softwares do mundo, roubou a invenção patenteada de uma companhia de Cingapura usada para impedir a pirataria e deve pagar mais de US$ 558 milhões em royalties”. A empresa indenizada é a Uniloc Singapore Private e Uniloc USA Inc.

A notícia é no mínimo curiosa: a maior empresa de software do mundo, tradicionalmente um dos atores mais ativos no combate à pirataria, teria sido processada por piratear um software antipirataria. Peço perdão à Língua Portuguesa pela repetição de palavras, mas o faço propositalmente, para evidenciar a ironia da notícia.

O valor dos royalties que a mais famosa empresa de software foi condenada a pagar seria o de menos, não revelasse algo grave e mais comum do que o desejado. O erro na reprodução de dados e o trabalho que dá descobrir se posso ou não confiar no que leio.

Essa foi a primeira notícia que li sobre o assunto e resolvi procurar mais informações. Eis que nada encontrei. Descobri então que a Agência France Press (AFP) e a Reuters tinham divulgado valor diferente (US$ 388 milhões), repercutindo na maior parte dos sites e jornais esse montante. No mesmo dia em que circulou a notícia já está na Wikipedia a atualização do verbete da Uniloc, utilizando como fonte a Business Week. A maior ocorrência de resultados iguais aos da Reuters e AFP me levariam a duvidar da credibilidade dos dados da Gazeta Mercantil, mas, mesmo assim, como o efeito de agências de notícias é multiplicador, por sua alta penetração e influência sobre a produção jornalística, não poderia simplesmente descartar nenhum dado em função do número de menções aos US$ 388.

O fato é: a Gazeta Mercantil, que já foi o principal jornal econômico para executivos, divulgou o valor que havia sido pedido pela Uniloc, e não o valor definido pela Justiça quando da condenação. Para descobrir isso, tentei, em vão, obter informações oficiais da justiça norte-americana. Nos sites da Microsoft e da Uniloc, nenhuma informação sobre o assunto.

Ou seja, o um minuto e meio que deveria ter sido destinado à leitura da notícia tornou-se algumas horas de pesquisa.

Esse tipo de erro é mais recorrente na mídia do que imaginamos. Poucas são as empresas que dispõem que uma equipe para checar dados. Poucos são os repórteres que verificam as informações que recebem. O jornalismo adora números. Eles dão a credibilidade e o impacto necessários a uma notícia. Ocorre que números são criados a partir de escolhas de critérios e é muito raro ver uma notícia que explica o cálculo realizado para se obter determinado dado - que, neste caso era para ser bem mais simples, por se tratar apenas de uma decisão da Justiça.

Definitivamente, certas notícias exigem do leitor crítico mais do que a simples abertura da página de um jornal ou o clique em um link.

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